Santa Terrinha
sexta-feira, junho 24, 2005
  Notas sobre a Murtosa em pré-Autárquicas, II

Muito se fala e discute sobre as debilidades da Murtosa. O exercício de enumeração exaustiva das carências do Concelho dá sempre azo a acaloradas discussões, mas, feito o balanço, no final sobram pouco mais que desabafos desencantados e poucas ou nenhumas soluções.

Quando me perguntam o que é que mais falta faz à Murtosa actualmente, a resposta é imediata e, para alguns, surpreendente: Pessoas, essencialmente.

O investimento, de reconhecida importância, diga-se, na Geografia Física da urbe Murtoseira – melhoria das acessibilidades, do parque escolar, do saneamento básico, etc – terá de ter, forçosamente, no futuro, um paralelo na Geografia Humana, sob pena de se estarem a criar infra-estruturas que, em poucos anos, a ninguém servirão, porque pura e simplesmente não existirão pessoas para delas usufruírem.

A Murtosa, segundo os últimos Censos, tem pouco mais de 9500 habitantes. Costumo frisar com frequência este dado, não por representar um estigma ou uma fatalidade, mas antes por ser uma realidade que é preciso ter em conta quando pretendemos fazer uma análise séria da especificidades Murtoseiras. A verdade é que um Concelho com menos de uma dezena de milhar de almas só a muito custo é um Concelho viável.

Considerando que o aumento da população à custa da taxa de natalidade não é coisa que se veja a médio prazo, e que a perspectiva algo Sebastianista do regresso da comunidade Murtoseira na diáspora não passa de uma miragem - principalmente quando falamos das segundas e terceiras gerações, já com pouca ligação à Terra Marinhoa - , restam-nos duas possibilidades: atrair pessoas “de fora” para a Murtosa e, principalmente, fixar quem já cá vive.

Sobre o primeiro aspecto, terei oportunidade de dissertar em ocasião oportuna, nomeadamente acerca dos entraves à aceitação de pessoas, ditas “de fora”, mesmo ao nível institucional, independentemente dos seus méritos, só porque não são da Murtosa. O “Focus” destas linhas será, portanto, o desafio de fixar quem por cá nasceu.

Ao analisar o assunto, a maior parte das pessoas refere a entrada no mercado de trabalho como a momento chave no fluxo de pessoas da Murtosa para o exterior. Também, mas não só, digo eu. Importa pois identificar e perceber cada um desses “momentos” , e elaborar estratégias para os inverter ou, pelo menos, atenuar.

A primeira “fuga” significativa, ainda que a tempo parcial, acontece por alturas do Liceu, após o 9º Ano, quando os estudantes se vêem obrigados a prosseguir os estudos fora da Murtosa, sendo que a maioria escolhe a Secundária de Estarreja, e, em menor número, as Secundárias de Aveiro ou de Ovar.

Aparentemente, esta primeira migração é mais ou menos inócua porque regra geral os jovens continuam a residir na Murtosa, apesar de passarem a maior parte do seu tempo útil nas áreas das respectivas Escolas. Uma análise mais atenta permite concluir que não é bem assim. Desde logo, torna-se mais fácil estabelecer relações com pessoas, instituições culturais ou até clubes desportivos dos concelhos onde estudam, já que estes estão, naturalmente, “mais à mão”, em detrimento do envolvimento nas estruturas locais.

A única forma de contrariar a saída de jovens entre os 14 e os 18 anos é, obviamente, prolongando até ao 12º ano a oferta escolar da Murtosa. Desconheço se a nova Escola da Saldida contemplará essa oferta.

O segundo momento que motiva a saída de jovens da Murtosa é, para quem prossegue os estudos, a entrada na Universidade. Aqui, obviamente, o contacto com outras realidades e meios, paralelamente à aquisição de conhecimentos, seria uma mais valia considerável para a Murtosa, caso os Licenciados pudessem exercer cá a sua profissão.

Isto leva-nos ao terceiro – e mais importante, porquanto é, a maior parte das vezes, irreversível – fluxo migratório: a entrada no mercado de trabalho. Licenciados ou não, a esmagadora maioria dos jovens não tem alternativa senão rumar aos grandes centros urbanos, onde, mercê dos objectivos que cada um traça para a sua vida, normalmente se fixam e constituem família, fazendo com que a umbilicalidade que os une à Murtosa se resuma a visitas esporádicas, habitualmente nas férias.

A não fixação deste Capital Humano, jovem, com ideias e com habilitações é particularmente danosa para a Murtosa. Não citando nomes, naturalmente, posso dizer que conheço muitas pessoas da minha geração, que trabalham hoje longe da terra que os viu nascer, cujas capacidades seriam uma mais valia inestimável para a Terra Marinhoa.

A única forma de contrariar este êxodo é, claramente, através da criação de emprego. Aqui, como em qualquer outro lugar, a existência de oportunidades de trabalho é condição essencial para a fixação das pessoas, nomeadamente das novas gerações. Se o diagnóstico é claro para toda a gente, a cura, essa, é bem mais complicada, principalmente se tivermos em linha de conta a grave conjuntura nacional.

Um concelho com as especificidades da Murtosa requer estratégias adequadas e exequíveis do ponto de vista económico. Esse será o assunto de um dos próximos posts.

 
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